Postagens

O Currículo dos Urubus - Rubem Alves

Texto extraído do livro de Rubem Alves:  "Estórias para quem gosta de ensinar"   “O Rei Leão, nobre cavalheiro, resolveu certa vez que nenhum dos seus súbditos haveria de morrer na ignorância. Que bem maior que a educação poderia existir? Convocou o urubu, impecavelmente trajado em sua beca doutoral, companheiro de preferências e de churrascos, para assumir a responsabilidade de organizar e redigir a cruzada do saber. Que os bichos precisavam de educação, não havia dúvidas. O problema primeiro era o que ensinar. Questão de currículos: estabelecer as coisas sobre as quais os mestres iriam falar e os discípulos iriam aprender. Parece que havia acordo entre os participantes do grupo de trabalho, todos urubus, é claro: os pensamentos dos urubus eram os mais verdadeiros; o andar dos urubus era o mais elegante; as preferências de nariz e de língua dos urubus eram as mais adequadas para uma saúde perfeita; a cor dos urubus era a mais tranquilizante; o canto dos urubus era o mais bon...

Como aprender sem conversar?

    Por diversas e incontáveis vezes ouvi a pergunta do responsável da criança no corredor da escola: e ai, meu filho anda conversando durante as aulas?        Perguntar se o filho está conversando muito na aula é o mesmo que perguntar se ele está tentando aprender ou tentando se desenvolver. Então, quando um pai diz que vai castigar o filho por conversar eu penso que o está castigando por tentar aprender. Esse é o meu raciocínio.     Acho que os pais deveriam parar de perguntar se os filhos estão conversando muito na escola. Ao invés disso, deveriam perguntar se a criança está interagindo, conversando, participando de projetos, oficinas e laboratórios. O resto é a Matemática, o Português, a Geografia, etc. O resto é o resto, é consequência. O principal é a interação, a boa conversa a troca de ideias e experiências. Os conteúdos são os complementos, as escolhas. Que tal os pais se preocuparem com o que realmente importa: o desenvolvimento do...

Panela de Pressão

     Eu tive que concordar com aquele homem que tentou definir a Matemática. Depois de 20 anos tentando entender a Matemática eu ouvi um matemático, na televisão, tentar defini-la. Acredito que, como ele e eu, todos os matemáticos achem que tentar definir a Matemática é algo impreciso e incompleto mas, se tivesse como fazê-lo, se fosse possível, eu diria que a Matemática é um tipo de tentativa, um tipo de conhecimento humano que tenta encontrar padrões. O homem disse "ciência dos padrões" mas advertiu ao repórter que só estava dizendo aquelas palavras  porque este havia perguntado e não tinha como responder a pergunta de forma satisfatória. Não existe definição que nos satisfaça mas precisamos começar de algum lugar e, chamar a matemática de ciência dos padrões, nos ajuda a começar a trilhar um caminho para entendê-la. Assim como Matemática eu também penso no significado de educação e de escola. Eu também tento definir o papel dos dois nas nossas vidas, e, como no c...

Síndrome do Corredor Vazio - O Cartão de Visitas

     O peixe diabo negro possui uma lâmpada pendurada na testa e vive a mais de 500 metros de profundidade no oceano em um local onde tem pouca luz. Eu digo que ele é um verdadeiro caolho em terra de cegos. A Dory e o Marlin do filme "Procurando Nemo" passaram apuros com o peixe diabo, quase foram devorados. Eu adoro aquela cena, principalmente quando o pai do Nemo, o Marlin, diz que "até tenta" mas não consegue evitar, que a luz "lhe traz paz". Eu costumo usar esse exemplo para descrever um fenômeno que ocorre nas nossas escolas. Toda escola brasileira recebe mais alunos do que pode suportar fisicamente. Mas se você visitar uma escola pública no Brasil vai perceber que os corredores estão vazios e silenciosos como um templo budista. Se você quiser paz não vá na sala de aula de uma escola, vá para os corredores, eu sempre digo isso às pessoas com a melhor e mais bela das ironias.Como é possível? Se pararmos para pensar não faz o menor sentido e um sistema...

Violência Na Escola #1

Acredito que o ser humano só se desenvolve ao se expressar. Mas não é só isso, é preciso ter um ambiente propício. Então temos um valor, um princípio muito importante chamado liberdade e um conceito chamado espaço de desenvolvimento. A escola como nós conhecemos não é um espaço de desenvolvimento humano. A liberdade, para crianças e professores é uma "impressão". Professores e crianças estão em regime de confinamento. Os professores acreditam que têm liberdade de ir e vir, mas é um autoengano engenhoso e conveniente. É óbvio que se tivessem liberdade para ir e vir poderiam retirar os alunos do confinamento sem se sentirem "pelados" fora da sala ou poderiam até mesmo tomar um café ou ir ao banheiro sem ter medo dos alunos se machucarem. A partir do momento que se "mistura" aos alunos, passa a ser cativo como eles. Ao serem "colocados" dentro de uma sala com 30 ou 40 alunos e são obrigados a "vigiá-los". Ora, sabemos que seres humanos c...

Broken Soul - Um termo novo?

    A imagem que tenho das crianças é inspiradora. Vejo crianças como seres curiosos e potencialmente capazes de mudar a realidade à sua volta. São gênios, artistas e cientistas por natureza. O amor à descoberta salta aos seus olhos e em determinada idade eles são capazes de experimentar e se arriscar sem medo. Chegam a ser imprudentes em várias situações. Tentam e querem aprender sobre tudo que está à sua volta. O ato de ler nessa idade mágica é feito com prazer. São máquinas incansáveis de aprendizagem e desenvolvimento. Porém, infelizmente, não são imparáveis .     Ocorre que a sociedade impõe às nossas crianças um processo educacional bastante equivocado para não dizer abusivo. Depois de passar pela escolarização, as mesmas crianças que eram curiosas e criativas se transformam, na maioria dos casos, em adolescentes completamente resistentes a qualquer tipo de atividade artística, científica ou cultural. Nossos pré-adolescentes mal pegam em um livro. Nessa idade, ...

ATÉ HOJE NÃO É BRINCADEIRA SENHOR FEYNMAN

Comprei R$ 60 de réguas e transferidores e tinha que ensinar, dentre vários conteúdos, o conceito de ângulos. A forma clássica de ensinar diz respeito a ensinar o que é um ângulo reto, agudo, raso e obtuso. A cartilha diz que você tem que ensinar os tais "ângulos notáveis" antes de introduzir o restante do conteúdo. Eu não concordo com cartilhas e não acho que o cérebro humano concorde com elas também. Você desenha ângulos na lousa, explica o "nome" de cada um deles. Executo esses procedimentos a mais de 15 anos e ainda não vi qualquer resultado satisfatório. Eu não queria fracassar de novo e então decidi levar algumas ferramentas para, ao invés de nos preocuparmos apenas com teorias, tentarmos fazer o assunto ter algum sentido. Logo eu me lembraria de novo do que Richard Feynman presenciou no Brasil do século XX. Os alunos rejeitaram as ferramentas e começaram a pedir para que eu voltasse para o quadro, para as boas e velhas teorias. No quadro geral de frustrações ...