Broken Soul - Um termo novo?

    A imagem que tenho das crianças é inspiradora. Vejo crianças como seres curiosos e potencialmente capazes de mudar a realidade à sua volta. São gênios, artistas e cientistas por natureza. O amor à descoberta salta aos seus olhos e em determinada idade eles são capazes de experimentar e se arriscar sem medo. Chegam a ser imprudentes em várias situações. Tentam e querem aprender sobre tudo que está à sua volta. O ato de ler nessa idade mágica é feito com prazer. São máquinas incansáveis de aprendizagem e desenvolvimento. Porém, infelizmente, não são imparáveis.
    Ocorre que a sociedade impõe às nossas crianças um processo educacional bastante equivocado para não dizer abusivo. Depois de passar pela escolarização, as mesmas crianças que eram curiosas e criativas se transformam, na maioria dos casos, em adolescentes completamente resistentes a qualquer tipo de atividade artística, científica ou cultural. Nossos pré-adolescentes mal pegam em um livro. Nessa idade, pegar em um livro ou assistir um documentário sobre "danças populares brasileiras" seria se submeter aos mandos e desmandos dos adultos. É como eles se sentem. Eles simplesmente estão cansados dos pais e professores lhes dizerem o que fazer e o que não fazer. Estão cansados de lhes dizerem o que devem ser. Esse comportamento apático é tão generalizado que acostumamos a achar que é "comportamento normal de adolescente" e muitos de nós até reforçamos isso dizendo que "também éramos assim". Não acho normal o fato de gênios e artistas estarem morrendo massivamente no caminho. Na minha opinião há algo errado, algo não está sendo cultivado, não estamos tendo o devido cuidado e atenção. Não é só na família ou na escola, eu diria que é em todo o sistema educacional, porém, nesse texto, vou me limitar apenas à escola. Não me sinto capacitado a criticar, de forma analítica, as outras instituições.
    Das várias instituições educacionais que temos hoje, a escola, juntamente com a família, são, ao meu ver, os principais responsáveis, os principais causadores de um fenômeno que chamo de ''quebra da alma". Como disse anteriormente, matamos os nossos potenciais artistas e cientistas, mas para facilitar o entendimento, esse fenômeno que, dentre outras coisas, causa a morte do espírito de busca pelo conhecimento eu vou chamar de Broken Soul¹.
    Esse termo me veio a mente um dia ao olhar nos olhos de um aluno que estava confinado a umas quatro horas e me pedia para "ir ao banheiro". Não sei quanto a outros professores, mas o fato de um ser humano pedir a outro ser humano para "ir ao banheiro" é algo que me deixa bastante desconfortável. Na verdade, sempre me deixou muito desconfortável. Sempre digo aos meus alunos, independente da idade, que podem ir ao banheiro sem me pedir, mas ele não conseguem: é hábito. Se é uma necessidade fisiológica, quem sou eu pra dizer não? Se o corpo deles está pedindo há uma razão natural, mas muitos colegas professores tem coragem de dizer não. A escola nos diz pra dizer não em determinadas ocasiões, em determinados momentos. Mas eu não obedeço. É uma violência, um ato lesivo à dignidade, um ato que, aos poucos, destrói a alma da criança. O único lugar, tirando a escola, em que as pessoas pedem para outras pessoas algo tão indigno, é a prisão. Aliás, a escola tem vários paralelos com essa instituição e eis aqui outra questão sobre Broken Soul: O confinamento humano. 
    Além de obrigar as crianças a pedirem pra ir ao banheiro, outro ato inglorioso que causa a Broken Soul é o confinamento. Minha atenção já foi chamada várias vezes e sofri várias advertências verbais de colegas professores sobre a minha decisão de usar a palavra "confinamento" no cotidiano da escola. A verdade é que a sala de aula (ironizada por alguns como "jaula de aula") é um confinamento humano. Não conheci uma só alma viva que não concorde com isso e até mesmo os mais tradicionais do ramo, pelo menos até hoje, não conseguiram fazer tal proeza. Quando termina minhas atividades fora da sala ( sempre as faço fora da sala, daí percebam a luta que travo contra o establishment) digo aos alunos o seguinte: "ok crianças! o nosso maravilhoso tempo acabou! devemos voltar agora para o confinamento!". É de praxe alguém dizer que eu estou "maculando" a instituição usando palavras tão indelicadas duras, pesadas, fortes etc. (já ouvi vários termos). Mas eu me defendo dizendo que estou apenas falando o que realmente é. Quando tentaram me intimidar com ameaças de assinaturas de termos e atas eu simplesmente disse que não assinaria nada. Ainda continuo chamando aquilo de confinamento, pelo menos até a data desta publicação. 
    O fato é que a escola confina, e o mais absurdo é que o faz com anuência dos pais, com anuência da sociedade. Mais um dos atos ilegais de crueldade e abuso infantil (ver art. 16 e 18 do ECA) que eu vivo denunciando, mas as pessoas simplesmente abaixam a cabeça. Confinar também mata a alma, ou seja, cria seres humanos Broken Soul. 
    Eu sou um Broken Soul, talvez você também seja, já que fomos confinados durante anos na escola. Eu não me lembro mas algo dentro de mim com certeza se lembra. Pra não deixar qualquer traço de dúvida eu pergunto: se você voltasse a ser criança, mas com o cérebro do adulto que é, iria querer passar de novo pela escola?    

¹Eu pesquisei esse termo na rede para tentar encontrar informações sobre esse fenômeno que ocorre visivelmente nas escolas. Consegui encontrar títulos de músicas e livros, porém, não consegui encontrar nada associado ao assunto desse texto. Então eu ainda não sei se sou o criador desse termo, enfim, se alguém souber eu agradeceria ser informado. 
    

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