Panela de Pressão
Eu tive que concordar com aquele homem que tentou definir a Matemática. Depois de 20 anos tentando entender a Matemática eu ouvi um matemático, na televisão, tentar defini-la. Acredito que, como ele e eu, todos os matemáticos achem que tentar definir a Matemática é algo impreciso e incompleto mas, se tivesse como fazê-lo, se fosse possível, eu diria que a Matemática é um tipo de tentativa, um tipo de conhecimento humano que tenta encontrar padrões. O homem disse "ciência dos padrões" mas advertiu ao repórter que só estava dizendo aquelas palavras porque este havia perguntado e não tinha como responder a pergunta de forma satisfatória. Não existe definição que nos satisfaça mas precisamos começar de algum lugar e, chamar a matemática de ciência dos padrões, nos ajuda a começar a trilhar um caminho para entendê-la. Assim como Matemática eu também penso no significado de educação e de escola. Eu também tento definir o papel dos dois nas nossas vidas, e, como no caso da Matemática, eu também não consigo pensar em algo satisfatório e completo. Mas se eu tivesse que começar de algum lugar eu diria que a educação e a escola servem para ajudar as pessoas.
Não quero entrar em teorias e méritos, quero considerar que a escola simplesmente está lá para tentar nos ajudar. Sabemos o quão é complicado a realidade que nos cerca e como é difícil viver e se encaixar na sociedade. Precisamos nos inserir e achar nossos espaços, precisamos nos incluir. Então poderíamos dizer que a escola nos ajuda a nos incluirmos dentro da sociedade para que tenhamos plenitude nos valores da segurança, liberdade, paz e as demais coisas. Todos queremos viver bem e a escola poderia estar ali, quem sabe, para nos ajudar com tudo isso.
Porém, saindo do mundo dos conceitos e mergulhando na realidade, eu sempre me faço certas perguntas. Da forma como a escola é, será que precisamos realmente dela em nossa sociedade? Veja, se nossa escola não está ensinando coisa alguma aos nosso alunos e só serve como um "depósito" onde os pais deixam seus filhos para trabalhar então porque professores? Porque não contratamos outro tipo de profissional e criamos apenas centros comunitários para que as crianças fiquem por lá até os pais irem buscá-los depois do trabalho? Poderia ser um profissional mais barato para a sociedade, com menos especializações porque os professores são bem mais caros e não estão conseguindo ensinar nossos filhos.
O profissional chamado professor é necessário? Eu sempre penso essas coisas, penso no meu salário e penso no que posso oferecer aos meus alunos. Eu mereço meu salário como professor? Eu só sirvo para transmitir conteúdo aos meus alunos? Transmitindo conteúdo escrito em livros aos meus alunos é a minha principal e única função? Provas, planejamentos e diagnósticos são realmente significativos e determinantes no processo?
Essas perguntas sempre me acompanham, nunca saem da minha cabeça. Quando eu faço essa pergunta a colegas de profissão sempre ouço justificativas mas não passam de meras justificativas. As vejo como formas de nos sentirmos à vontade em sermos irresponsáveis, coniventes e acomodados. O que poderiam dizer afinal de contas? A mais comum e absurda das justificativas que ouço é a de que "a culpa é do sistema".
Se uma criança joga uma pedra e quebra uma vidraça nós queremos que ela assuma o que fez porque pensamos que isso ajuda na formação do caráter. É óbvio que queremos que a criança seja um adulto com caráter. Quando a criança aponta para o primo e diz que fez porque ele mandou nós geralmente ficamos bravos e dizemos: "se ele mandar você pular no buraco você pula?"
Eu sei que o sistema tenta sobreviver e nos impulsiona a fazer coisas que não gostaríamos mais eu tenho vontade de falar isso para os meus colegas de trabalho, dar a mesma resposta que meus pais me davam quando eu dizia que estava agindo "a mando", não só para os que trabalham comigo, mas para todos os professores de todos os lugares do mundo. Eu tenho meus problemas com o sistema, acho que todos no planeta que trabalham ou convivem dentro de sistemas também tem problemas e questionamentos, mas eu acho que devemos ter lucidez suficiente para assumir que também temos nossa parcela de culpa. Devemos, antes de tudo, assumir as responsabilidades que nos cabem e parar de tentar transferi-las através de justificativas vazias só porque não sabemos como consertar ou conduzir a escola como deveríamos. E devemos fazer isso porque nós mesmos (e nossos alunos) precisamos de ajuda, ajuda que só a escola pode nos dar. Não é simples, mas vamos começar de algum lugar.
A escola é um lugar onde as pessoas se reúnem e isso é uma grande oportunidade. Pessoas podem se reunir hoje de forma virtual mas a escola nos dá a oportunidade de nos reunirmos, com frequência, de forma física. Dessa reunião pode sair muita coisa boa, porém, acredito que estamos usando essa oportunidade para fazermos coisas muito ruins.
Para começar nós baseamos as relações em medo. Como todos sabem, escola é fechada por muros (que são um símbolo de medo e opressão) e suas regras são baseadas em hierarquias e formas de organização artificiais - não levamos em consideração a natureza humana de viver. Nós dividimos os integrantes da escola em turmas. Tem a diretoria e a coordenação. Tem os professores e a turma da cozinha e também a da limpeza. Os alunos são identificados por códigos alfanuméricos para serem designados ou encontrados. Temos a Mônica da turma F1 e a Mônica da D3. Então se temos alguma dúvida podemos perguntar se é a Rosa da cozinha ou a da limpeza. Nós fazemos isso porque pensamos ser a melhor forma de se organizar e planejar nossas ações. Mas acredito que fazemos isso por outros motivos que envolvem várias questões e uma delas é o medo. No caso dos alunos temos muito medo e são vários tipos de medo. Temos medo de que o aluno saia da escola e se machuque ou desapareça e por isso os muros. A coisa toda já começa errada por aí.
Uma vez dentro dos muros nós, por medo, designamos nossos alunos ao que chamamos de turma ou sala de aula. Queremos organizar, é claro, mas temos medo também de que eles se machuquem e então estabelecemos a regra de que eles não devem ficar fora de sua turma. Nesse contexto ocorre um fenômeno interessante. As pessoas fora da escola a olham e dizem que "lugar de criança é na escola". Mas antes de eu perguntar o porque disso vem as pessoas dentro da escola dizendo que "lugar de criança é dentro da sala de aula". Veja que há duas formas de confinamento em dois níveis diferentes de redução de espaço, mas não para por aí. As pessoas dentro das salas dizem que "aluno tem que ficar em fila e sentado". Vejam como o medo pode ser prejudicial.
O aluno é preso em três níveis de confinamento seguido, um tipo de redução, não só de espaço vital, mas de possibilidades de desenvolvimento. Um tempo depois é dito a alguns alunos que não podem sentar perto de quem tem mais afinidade, então cria-se um mapa de sala, um dos instrumentos mais anti-humanos e insensíveis que se poderia inventar. Nesse pedaço de papel, o aluno é reduzido a um pequeno quadradinho com o seu nome (normalmente escrito na diagonal). Ali é descrito, em coordenadas cartesianas, o ponto da sala onde ele irá sentar-se, provavelmente durante todo o ano (sou mestre em desfazer esse documento, não existe ser humano na terra que o despreze mais do que eu). Muro, sala, fileira, cadeira e plano cartesiano. Não tem como um sistema espartano desses dar certo!
Há muitas justificativas nessas ações, mas com tempo eu percebi que são apenas desculpas para nos sentirmos à vontade em sermos irresponsáveis e cruéis. Não é só sermos cruéis com nossas crianças mas também somos irresponsáveis com elas e, consequentemente, com nós mesmos. Tomara que não exista condenação ou julgamento após a morte porque essas crianças podem crescer, esquecer o que fizemos com elas, se tornar professores e fazer o mesmo. São as nossas ações que criam as nossas condições e perpetuam os nossos próprios pesadelos. A escola nesse molde, onde o aluno é confinado em um lugar determinado, dentro de uma sala fechada por quatro paredes que por sua vez está dentro de uma instituição com muros, acaba se tornando uma panela de pressão.
Uma constatação incrível é como os paradoxos se formam e como são sutis os seus contornos. O fato é que temos um problema sério de quantidade de alunos por escola, por sala e por professor. Nós dizemos que temos muitos alunos nas escolas mas não percebemos que o sistema de "panela de pressão" nos incentiva a manter ou aumentar essa quantidade. Um tiro no próprio pé. É um problema simples de física. Quanto mais aumentamos a pressão, aumentamos os espaços e as vagas, de forma que o sistema educacional que sustentamos se torna mais barato e ineficiente possível.
Interessante e revelador dizermos que a culpa é do sistema, mas, ao mesmo tempo, quando um aluno pede para ir ao banheiro dizemos "não", sabendo que ele ficou sentado sem poder conversar ou se mexer por uma hora e meia ou mais. O sistema também nos obriga a sermos gratuitamente cruéis? Questionamos se o aluno quer mesmo ir ao banheiro e olhamos de forma desconfiada sem levarmos em consideração que, na maioria das vezes, ele só quer pegar um ar, sair um pouco do confinamento, algo que nós mesmos iríamos querer se estivéssemos no seu lugar. Vejam que não há empatia pelo aluno mas quando somos obrigados a fazer cursos, seja para aumentarmos nosso salário ou algo do gênero, nós pedimos trégua aos nossos palestrantes. Bem irresponsável da nossa parte, eu diria, porque as crianças, quando crescerem, provavelmente irão perpetuar a nossa crueldade gratuita.
O sistema está dentro de nós se mantendo, se perpetuando em cada uma de nossas ações na escola. Passei a ver cada gesto, ação, movimento ou decisão de cada funcionário, professor e aluno da escola como reprodução viva do sistema que todos nós condenamos. Para mim, hoje, agora, o sistema somos nós mesmos, não são nossos políticos ou nossas "secretarias de educação" ou nossas leis, nem o conjunto de tudo isso. Somos nós professores, nós escola, alunos e pais. A comunidade em si é o problema e ao mesmo tempo é a solução.
Outra ideia que me vem a cabeça é sobre nossa noção de organização. Temos uma noção muito deturpada do que é organização porque obrigamos nossas crianças a nos pedir para se ausentar dos nossos confinamentos em nome de uma ordem pré-estabelecida. Achamos que escola organizada é escola sem alunos no corredor. Não nos perguntamos se é possível que nossos alunos possam se ausentar do confinamento por vontade própria sem "desorganizar" a escola. Simplesmente projetamos o caos antes mesmo de testarmos. Não há confiança nas crianças e penso que é por causa de como as tratamos. De certa forma sabemos que não estamos fazendo as coisas como deveríamos fazer então temos medo, medo até mesmo de tentar fazer algo diferente daquilo que fomos ensinados pelo sistema que reproduzimos com lealdade cega.
Como há muitos paradoxos aqui eu sou inclinado a ficar bastante desconfiando ao ouvir a frase "a culpa é do sistema". Como eu nunca escuto os professores falarem sobre o que eles podem fazer para melhorar a condição de nossos alunos eu entendo que dizer que "a culpa é do sistema" significa "exclusivamente do sistema". Dizem também que a culpa é "das famílias".
Como a família ou o sistema podem ser os únicos responsáveis pelo comportamento do aluno que está sob a tutela da escola? É o que tenho ouvido dos meus colegas a vida toda desde que comecei a aventura de ser professor. Eu até compartilhei dessa visão com eles durante muito tempo porque pensava que o sistema da escola, apesar de me soar estranho desde o início, me parecia ser o único possível. Não é.
Por fim devo dizer que tentar encontrar explicações fáceis e convenientes para o comportamento de outrem em relação a nós mesmos ou ao ambiente que estamos inseridos, com intuito de nos eximirmos das nossas responsabilidades, é algo que o ser humano sempre fez. Existe uma gama infinita de ações e pretextos que os seres humanos criam para poder se eximir de responsabilidades ou agir em desfavor de outros, mas dizer que um aluno jogou papel higiênico no vaso da escola porque "não foi devidamente educado pela família" sem levar em consideração aquilo que o aluno "vive" na escola é deveras irracional, principalmente vindo de professores. Será que os pais entregam os alunos "prontos" para nós professores? Nossas ações não influenciam em nada no comportamento deles? E as ações "negativas" da escola como os horários, as pressões, os confinamentos, as atividades sem sentido, as cobranças sem compensações, as broncas dos coordenadores e professores? Os seres humanos não ficam "prontos" nem depois de 100 anos e queremos que nossos alunos de 8 estejam "prontos"? Enfim...
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