Síndrome do Corredor Vazio - O Cartão de Visitas
O peixe diabo negro possui uma lâmpada pendurada na testa e vive a mais de 500 metros de profundidade no oceano em um local onde tem pouca luz. Eu digo que ele é um verdadeiro caolho em terra de cegos. A Dory e o Marlin do filme "Procurando Nemo" passaram apuros com o peixe diabo, quase foram devorados. Eu adoro aquela cena, principalmente quando o pai do Nemo, o Marlin, diz que "até tenta" mas não consegue evitar, que a luz "lhe traz paz". Eu costumo usar esse exemplo para descrever um fenômeno que ocorre nas nossas escolas. Toda escola brasileira recebe mais alunos do que pode suportar fisicamente. Mas se você visitar uma escola pública no Brasil vai perceber que os corredores estão vazios e silenciosos como um templo budista. Se você quiser paz não vá na sala de aula de uma escola, vá para os corredores, eu sempre digo isso às pessoas com a melhor e mais bela das ironias.Como é possível? Se pararmos para pensar não faz o menor sentido e um sistema desses só pode se alimentar com dois ingredientes bem combinados: pressão e opressão.
As pessoas acham que nossos alunos podem ficar confinados passivamente já que eles "têm o que fazer" mas a verdade é que eles não têm. "Ter o que fazer" envolve interesse, escolha, estimulo e motivação mas uma "tarefa" de História é menos interessante do que lavar o chão da sua casa. Digo isso porque se você lava o chão vai ver o resultado e colher os benefícios. A tarefa de história ou matemática na escola não é recompensada. Essas atividades não têm o menor sentido para o aluno. Acredito que não tenha sentido nem para o professor, ele só as transmite aos alunos porque quando era aluno as mesmas atividades foram transmitidas para ele. Se você duvida disso folheie os livros didáticos e veja por si mesmo. Não há sentido. Os livros de ciência, por exemplo, não tem qualquer aplicação prática de ciência, eles não passam de catálogos de termos e jargões. Isso não é dar "o que fazer" para crianças e adolescentes, isso é apenas pretexto para oprimir.
Se você me perguntar como a escola consegue ser tão silenciosa e organizada eu lhe respondo que ela não é silenciosa e nem é organizada. As salas de aula são sujas, barulhentas e desorganizadas. Tudo é planejado para que os corredores sejam limpos "de alunos". A escola acha que os alunos "poluem" os corredores e é política da empresa manter os corredores limpos. Encara os seus corredores assim como Kim Jong-un encara pyongyang. Ambos são cartões de visitas.
Um dos resultados dessa política do "corredor limpo" é a quantidade de atestados médicos emitidos pelos professores. A coisa toda vai se encaixando e tudo vai fazendo sentido. A escola se safa de tudo e fica bem na fita enquanto alunos e professores vão adoecendo, estes adoecem o corpo e aqueles a alma. Os professores se sentem na obrigação de segurar os alunos nas salas para limpar os corredores. Se os alunos brigam ou se machucam querem culpar os professores que foram colocados com os alunos dentro de uma verdadeira panela de pressão. E não precisam se preocupar porque nossos professores são tão bem "treinados" pelo sistema que o defendem a todo custo e aceitam tudo naturalmente. A vida prossegue, os atestados se multiplicam e os alunos não desenvolvem.
Tem um caso interessante de uma coordenadora que veio me aconselhar a não sair da sala e deixar os alunos sozinhos. Eu disse que havia saído da sala para conversar com um dos alunos e que não via problema em deixar os outros por lá, que eu confiava neles. E se eles brigarem ou se machucarem? - ela disse. Respondi que, se eles brigarem ou se machucarem, nós, escola, não estamos fazendo nosso trabalho direito, foi o que eu disse. A escola não possui a obrigação legal de formar cidadãos? Nossos alunos não deveriam aprender a conviver em sociedade? Se eles estão se batendo e debatendo tem algo errado e com certeza não são eles, ou o professor.
Outro fato interessante é a visita à escola. A escola se comporta como uma pessoa que tem a casa desorganizada, mas no dia da visita, dá aquela faxina. Quando a comunidade vai visitar a escola quem sofre são os alunos e professores. Os coordenadores e diretores, na intenção de mostrar seu cartão de visitas, decretam o estado de sítio. Os pobres alunos não têm direito nem a educação física. Cansei de ver professor de Educação Física ter que passar "conteúdo", "matéria" pros alunos em dias de visita.
Pra finalizar quero compartilhar com vocês o fato de que, quando eu fui coordenador, sentia um alívio e uma sensação de dever cumprido quando eu esvaziava o corredor. Quando havia alunos no corredor me dava uma sensação muito ruim, aquilo me incomodava. Eu sentia que não estava fazendo meu trabalho direito. Hoje eu percebo que criamos um profissional cuja função é manter os corredores vazios e inquirir alunos sobre os motivos de não estarem na sala. Eu ouvia da diretoria, de forma veemente, que "lugar de aluno é na sala". Ouvia eles dizerem que "professor que bota aluna pra fora da sala é folgado". Pensam que estão dentro da lógica e da lei, pensam que estão seguindo a ordem natural das coisas. Não acho natural confinar seres humanos em salas para manterem aparência de qualidade, equilíbrio e organização. E se pensam que estão seguindo a lei, saibam eles que a lei não prevê que no processo educacional haja qualquer menção a manter os corredores da escola vazios. Pelo contrário, o ECA prevê que os alunos têm o direito de ir e vir, ou seja, a escola comete ilegalidade ao tentar manter as aparências. Enfim, sendo por ignorância ou não, a escola possui, dentre várias outras, a síndrome do corredor vazio e se chafurda em ilegalidade. Comete crime mas não é punida.
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