ATÉ HOJE NÃO É BRINCADEIRA SENHOR FEYNMAN

Comprei R$ 60 de réguas e transferidores e tinha que ensinar, dentre vários conteúdos, o conceito de ângulos. A forma clássica de ensinar diz respeito a ensinar o que é um ângulo reto, agudo, raso e obtuso. A cartilha diz que você tem que ensinar os tais "ângulos notáveis" antes de introduzir o restante do conteúdo. Eu não concordo com cartilhas e não acho que o cérebro humano concorde com elas também. Você desenha ângulos na lousa, explica o "nome" de cada um deles. Executo esses procedimentos a mais de 15 anos e ainda não vi qualquer resultado satisfatório. Eu não queria fracassar de novo e então decidi levar algumas ferramentas para, ao invés de nos preocuparmos apenas com teorias, tentarmos fazer o assunto ter algum sentido. Logo eu me lembraria de novo do que Richard Feynman presenciou no Brasil do século XX. Os alunos rejeitaram as ferramentas e começaram a pedir para que eu voltasse para o quadro, para as boas e velhas teorias. No quadro geral de frustrações profissionais essa foi apenas mais uma, mais uma das infindáveis frustrações de ser um professor no Brasil do século XXI. 
    Richard P. Feynman foi um físico famoso que, assim como vários outros bons físicos, foi pioneiro em alguns assuntos de física e grande incentivador das ciências. Acho que o que tenho em comum com ele é a vontade de ver meus alunos aprendendo de verdade. Feynman viveu 69 anos e sucumbiu 10 anos depois de eu ter nascido, 1988. Entre 1949 e 1966 deu palestras, fez pesquisas e chegou a ministrar cursos durante dez meses na Universidade do Brasil e no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas. Mas um dos grandes legados que este homem nos deixou foi suas críticas sobre o ensino livresco e conteudista brasileiro da época. Seus comentários sobre algumas dessas experiências que viveu no Brasil estão registrados em seu livro "Só pode ser brincadeira, senhor Feynman".  Feynman realizou uma conferência no dia 5 de maio de 1952 no salão da Faculdade de Filosofia e tinha como título "minha experiência como professor no Brasil". Nessa conferência ele afirmou de forma veemente, para a surpresa de todos os presentes, que "no Brasil não se ensina ciência nenhuma". Feynman descreve que ficou chocado ao ver crianças no Brasil comprando livros de física, começando mais cedo do que as crianças nos Estados Unidos. Porém ele observou que não havia muitos físicos no Brasil o que lhe fez concluir que, apesar de ver crianças dando duro, não havia resultados satisfatórios. Sobre suas experiências com os estudantes brasileiros ele descobriu que tinham uma grande capacidade para decorar as teorias mas não sabiam que a direção da luz é aquela na qual "você vê alguma coisa quando está olhando". Se perguntasse o que é "Ângulo de Brewster" recebia respostas precisas, mas se dissesse "Observe a água" eles não sabiam fazê-lo. Quando falava "Ângulo de Brewster" acionava a senha do computador, mas quando dizia algo simples associado a um experimento os alunos não conseguiam prosseguir. 
    Outra crítica de Feynman é que os alunos não sabiam trabalhar em grupo. Ele afirma que não entendia aquele individualismo sem sentido e perguntou aos alunos porque eles não analisavam e discutiam suas dúvidas com seus pares. Segundo ele "não o faziam porque achavam que se exporiam se tivessem de perguntar alguma coisa a outra pessoa". Classificou esse comportamento como uma "forma esquesita de autopropagar a educação". Ele concluiu que os alunos não faziam perguntas porque se sentiam intimidados com os colegas que queriam aprender alguma coisa nas aulas. Talvez esses "colegas" considerassem as perguntas incômodas e desnecessárias além do que interrompiam o "raciocínio do professor", algo bastante atual, eu diria. Por fim ele concluiu que os estudantes fingiam que sabiam e adotavam posturas de superioridade em relação aos que faziam perguntas como se eles mesmos estivessem entendendo o que estava sendo dito. Penso que, no final das contas, ninguém estava entendo bulhufas e aprendendo menos ainda. 
    O que tenho a dizer à memória de Richard Feynman é que as coisas ainda não mudaram muito desde o século passado. As escolas ainda não têm laboratórios nem oficinas e os alunos vão até lá para receberem aulas e fazerem provas. Aprendem a ser competitivos e se isolam uns dos outros. Acontece o mesmo nas faculdades e universidades. Ainda somos acometidos pela síndrome do enciclopedismo, do tecnicismo, do teoricismo. Ainda achamos que podemos melhorar um sistema burocrático criando mais termos burocráticos como "habilidades", "competências", "habilidades estruturantes", "objetos de conhecimento", "ensino híbrido", "cortes temporais" e outras parnafernalhas. O ensino continua livresco, estático e palestral.     Os professores se aposentam frustrados e arrependidos de terem escolhido uma profissão da qual deveriam ter se orgulhado. Sozinhos e isolados dos alunos por via das aulas que ministram, começam a perder a "razão de ser" e suas almas morrem precocemente aos dois anos de profissão transformando-os em zumbis institucionais que praguejam constante e continuamente contra um sistema que eles mesmos mantêm e defendem com unhas e dentes. Ideias novas como "grupos de afinidades", "grupos de aprendizagem" e "comunidades de aprendizagem" são desencorajadas ou vistas como filosofias baratas. Quando fala-se de escola sem aulas e sem séries eles interpretam como anarquia. 
    Por fim, quero dizer à memória do senhor Feynman que, apesar de ainda estarmos estáticos, parados no tempo, existem, aqui no Brasil, aqueles que entenderam o seu recado. São pessoas e escolas que tiveram a coragem de experimentar o novo, faculdades e professores universitários que deixaram as salas de aula e migraram para laboratórios e oficinas onde a ciência realmente acontece e onde são forjados os verdadeiros pesquisadores e inovadores. Em todas essas experiências tivemos resultados de excelência em desenvolvimento humano. Ainda somos poucos tentando convencer muitos, mas acredito que no final desse século estaremos preparados para o tão sonhado século da educação. 

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