MÉTRICAS DE GUERRA

A guerra do Vietnã possui uma peculiaridade que quero compartilhar. É algo que nos ensina muito. São suas métricas. Sabemos que as nações, povos ou comunidades em conflito sentem uma necessidade natural de se dizerem vitoriosos a despeito dos resultados. Pessoas brigam e contam suas vantagens depois, assim como as crianças e adolescentes, cada qual quer puxar a sardinha para o seu lado, elevar a moral, enfim. Mas para se gabarem as nações precisam estabelecer as chamadas "métricas de guerra". Normalmente as métricas são a quantidade de território conquistado, ou seja, um lugar plano onde se possa estacionar o aparato bélico de forma estratégica para que, no futuro, se possa migrar para o próximo território melhorando a logística e chegando cada vez mais próximo da vitória. No Vietnã não dava para fazer isso porque a geografia não permitia. Era floresta densa, pântanos e arrozais. Não dava para conquistar uma região e depois outra à frente porque não havia regiões propícias à frente. Quando conquistavam uma colina, depois de muita carnificina dos dois lados, abandonavam-na e nunca mais voltavam. Então a métrica passou naturalmente a ser a contagem de corpos. Isso acabou tornando a guerra do Vietnã uma das mais imorais da história moderna, talvez a mais imoral de nossa época. O caso é que os países tentavam se gabar da quantidade de corpos abatidos por dia ou por batalha. E aí é que começa toda a imoralidade humana porque, nesse caso, existia a possibilidade de se matar civis para somar aos corpos. Soldados inimigos vivos não ajudavam nas métricas então não se fazia prisioneiros, era necessário matar para tirar as fotos dos corpos. De fato, quando aviões bombardeavam estradas, vilas e cidades, os corpos queimados eram indistinguíveis quanto ao sexo ou origem. Sendo assim, qualquer cadáver era registrado. Se invadissem uma vila e encontrassem alguns soldados inimigos, porque não matar toda a vila para deixar o capitão do pelotão satisfeito com a contagem? Em um sistema bizarro desses é bastante provável que existia a pressão para cumprimento de metas. Quando você lê sobre a guerra do Vietnã vai  encontrar vários casos de massacres em vilas deliberadamente causados por vários motivos e um deles são as métricas por contagem de corpos. 
Mas o que dizer então dessas contagens? São confiáveis? É óbvio que não. Na guerra do Vietnã, como em todas as guerras, cada um dos lados aumentava a contagem oficial e é aí que quero comentar. As métricas de guerra transformam soldados em mentirosos. Essa frase última frase não é minha, eu ouvi ou li em algum lugar mas ela faz sentido já que todo sistema que se mantém por métricas acaba por criar mentirosos. Não é só na guerra. 
O Ideb é um sistema que depende de métricas e foi criado, segundo dizem, para medir a "qualidade do ensino" com a intensão de estabelecer metas de investimento e possível melhora do sistema educacional. Se a guerra do Vietnã cria soldados mentirosos, o Ideb cria professores mentirosos. Não só professores mentirosos, mas cria intriga entre professores e entre instituições de ensino. Eu me lembro de diretores em reuniões de professores colocarem em cheque os resultados da escola do bairro ao lado. Como eles conseguiram e a a nossa escola não? - Comentavam. O que será que fizeram para conseguir? - E segue as risadas irônicas. E as discussões e polêmicas que os professores criam quando são visitados pelos fiscais das provas diagnósticas, aqueles a que chamam de apoio? Essas discussões giram em torno das questões que estão passando para os alunos porque ambos querem que seja algo tão trivial quanto 1+1. Não há discussões sobre o que aquilo está servindo para melhorar, desenvolver o aluno, sua inteligência, seu conforto ou segurança dentro da instituição mas a discussão é descaradamente sobre se a questão não vai induzí-lo ao erro no dia do exame. Eu chamo de efeito "pé de mesa" em referência a uma discussão bizarra que presenciei em uma reunião. Na ocasião alguém reclamou do desenho de um pé de mesa numa questão de Matemática, um pé de mesa que, segundo disseram, induziria o aluno à resposta errada do problema, o que faria com que, mais uma vez, o trabalho de professor reprodutor de sistema falido não fosse reconhecido ou valorizado. O que estavam reclamando na íntegra era que, apesar de ter trabalhado segundo manda o manual, estariam os elaboradores da prova induzindo o aluno ao erro. O fato é que o problema não é no desenho mas no processo educacional em si. Nas reuniões que chamo de "reuniões corporativas" não há proveito de tempo e espaço, não há discussões úteis ou frutíferas, algo que melhore a condição do aluno na escola e, consequentemente, o sistema todo em si. O que disseram, trocando em miúdos, é que, se quisermos fingir, devemos nos unir e quem elabora as provas também deve colaborar para os resultados serem satisfatórios. Existe essa intriga entre elaboradores de provas e professores nesse jogo de "aponta dedo". O professor diz: "se eu trabalho no trivial, no padronizado, no repetitivo, então que o elaborador de provas leia o mesmo manual". Parem de induzir nossos alunos ao erro e abaixo os "distratores".
Prova Brasil, Saeb, Ideb ou qualquer outro sistema de provas diagnósticas são ferramentas feitas para ajudar mas, na prática não funcionam como deveriam, não na maioria dos casos, já que o sistema em si não funciona. Na guerra do Vietnã os números eram sistematicamente alterados para parecerem que os Estados Unidos estavam vencendo. Pelo que dizem havia casos e que os soldados matavam civis e os incluíam nas contagens de corpos ou simplesmente seus superiores alteravam as métricas e divulgavam nos jornais que circulavam pelo seu país, tudo para levantar a moral da nação. Depois que a guerra acabou o mundo ficou sabendo que, quando um pelotão Estadunidense encontrava um pelotão vietcongue, 99% era de emboscadas destes, o que nos dá uma ideia de como as métricas devem ter sido alteradas em várias ocasiões, já que, pelo que sei, em uma emboscada, o número de emboscados mortos é maior. O mundo vivia um conflito ideológico que eu provavelmente nunca vou entender pois não vivi aquilo em minha época, o que gerou muita pressão em cima dos líderes dos dois países e em seus subalternos. A pressão acaba sendo conectada e transmitida desde os oficiais, passando por todas as patentes, até chegar nos soldados em campo. Quando falamos em exames diagnóstico também falamos de pressões feitas sobre escolas e professores. Cada ente educacional desenvolve uma técnica para enganar o sistema e não ficar mal na fita porque todo mundo sabe que o sistema educacional brasileiro não entrega o pacote ao usuário final. Como justificar o salário do professor ou o repasse de verbas para as escolas se estes entes não atingirem as metas impostas? Não há outra saída, já que o sistema educacional não funciona, a não ser mentir.  O fato é que quando uma escola se gaba de ter atingido a meta do ano as outras escolas desconfiam e com razão. A razão é simples: todos sabem que nossos alunos não estão aprendendo e todos sabem que atingir as metas não é possível. Sabemos que os órgãos educacionais responsáveis pelos exames de diagnósticos cobram das secretarias de educação e estas, por sua vez, cobram das escolas. Todos estes entes educacionais começam a bater cabeça. Os números apresentados são mentirosos e tendenciosos por vários motivos, não só pelo simples fato de que o conhecimento humano não é mensurável numericamente, mas também pelo fato de tentarem fazer chover no molhado. 
Primeiro quero dizer que a mentira é totalmente legítima. Em outros textos eu tento explicar o "porquê" de a educação não funcionar, tento dizer para as pessoas a diferença entre aprender e desenvolver. Não dá para detalhar neste texto pois ele ficaria muito prolixo e não é o objetivo. Mas vamos pensar que, para se aprender algo, para transformar algo em conhecimento, para que a aprendizagem seja significativa é necessário um trabalho focado no interesse e escolha do aluno. Sabemos que as aulas não tem qualquer significado e, portanto, o aluno não se interessa e, consequentemente, não se desenvolve. Se não desenvolve não aprende.  A saída veio de um talento natural do ser humano de reproduzir algo, de copiar algo, de "decorar". Estamos usando a capacidade nata de decorar das crianças e dizendo para a sociedade que elas estão desenvolvendo e aprendendo.  O que isto tem haver com os órgãos exames diagnósticos, secretarias de educação e escolas? Como eles não têm saída, ou seja, tem que mostrar métricas positivas para a sociedade, criaram um sistema totalmente insalubre para enganar-se e enganar a sociedade. Funciona assim: você não têm que elaborar uma prova oficial este ano? Os alunos não têm que atingir a média que a sociedade está pedindo? Faça o seguinte (proposta indecorosa): mande todas as escolas fazerem simulados com os alunos o ano inteiro, digamos, uma vez por mês. As questões são sempre as mesmas, digamos, 25 questões. Defina uma área de conhecimento plausível dentro das disciplinas cobradas (Português e Matemática). Faça uma lavagem cerebral neles, passe sempre as mesmas questões, monitore, veja quais eles tem mais "resistência" e repita, repita e repita. Faça gráficos e tabelas para padronizar tudo e fornecer informações sobre as partes não reproduzidas satisfatoriamente. O segredo é repetição, reforço e repetição. Confie nos números e nas planilhas como se fossem deuses e eles lhe darão as respostas do que fazer. É só Português e Matemática então aproveite e coloque eles para fazer e refazer sem levar em consideração as outras 10 disciplinas ou o tempo inútil que estão gastando nelas. Essas outras disciplinas não importam mesmo, então peça para os outros profissionais ajudarem nas de vocês também se possível, mas se não, o aluno que se vire para estudar tudo que vier, mas o Português e a Matemática são prioridades absolutas. No dia da prova diagnóstica, dispense os alunos que têm mais dificuldade se precisar. Pode dar uma ajudinha  de leve, eu faço uma "vistinha grossa" afinal estão me cobrando também. Não tem problema, precisamos aumentar 5 pontos percentuais em relação ao ano passado. Se a sua escola conseguir nós divulgaremos e as outras escolas ficarão com inveja, mas isso é bom, gera uma disputa saudável. No dia da prova, eu passarei questões idênticas, e, como você já fez a lavagem cerebral, já treinou os alunos como robôs, vai dar certo. Vamos ter fé.
E se mesmo assim, depois de tudo isso, a média não for alcançada? Essa resposta eu não sei, porque para mim ela nunca é. Eu sempre penso que não é alcançada e é alterada depois, simplesmente não confio porque sei que esse tipo de sistema não funciona de forma alguma. Mas o estrago já foi feito. Os alunos, mesmo aqueles que tiraram nota acima da média, não aprenderam. Eu sei que não aprenderam como eu sei que a água molha, o fogo queima, que o sol é a nossa fonte primária de energia, etc. Não há aprendizado sem desenvolvimento, e esse tempo todo trabalhando com eles como se fossem máquinas de reprodução tirou-lhes um tempo valioso em que o professor podia estar trabalhando com desenvolvimento. O fato é que o estrago já foi feito de forma irremediável. Essa tem sido a herança, o presente deixado pelas nossas provas diagnósticas. As provas diagnósticas são uma medida óbvia e compreensível mas, devido ao sistema decadente, causa o contrário daquilo que propõe: um país desenvolvido e com uma economia forte.  Um lugar seguro e confortável de se viver. Não é isso que queremos? Liberdade, qualidade de vida e direitos sociais sólidos? Como materializar tudo isso com uma educação com nível tão elevado de tecnicismo bruto? As técnicas de fabricação de resultados são uma perversão sistêmica. Imagine como a população do Vietnã sofreu com as métricas de guerra por contagem de corpos? Nossos alunos também sofrem. Eu vejo o sofrimento nos olhos deles. Pense nas consequências sociais projetadas no tempo. Esse desastre educacional institucionalizado que estamos alimentando, essas métricas oficiais, esses números e padrões. Sei que existem soluções inteligentes, não soluções que eliminam o problema, mas soluções que o diluem. Investir nos alunos e não nas métricas é um bom começo. Investir no bem estar dos alunos e no seu desenvolvimento e não apenas em números, resultados e provas, já que essas coisas fazem eles se distanciarem deles mesmos e da sociedade, tira deles a empatia que faltou a muitos soldados que invadiram vilas na guerra do Vietnã. Se você quer cidadãos mais inteligentes, mais capazes, enfim, mais desenvolvidos invista em desenvolvimento humano. A mesma ideia vale se você não quer que soldados, em meio a uma guerra, invadam uma vila e matem sistematicamente homens, mulheres e crianças. Karl Marlantes, combatente no vietnã, disse, em documentário na Netflix, que não achava ser o exército o "responsável por criar jovens monstros". Disse  que provavelmente o mal já estava naqueles jovens como o está em todo ser humano e que o exército e a guerra foram apenas seus catalisadores. Investir em desenvolvimento humano pode ser uma ótima alternativa em tentar neutralizar esse mal inato e inerente a todo ser humano. Depois de investir em desenvolvimento humano nós podemos usar as métricas sem medo de causar rivalidades ou mentiras gratuitas já que estaríamos realmente utilizando para melhorar e não o contrário. Ocorre que um ser humano desenvolvido aprende Matemática, Português e também aprende a tratar outro ser humano com respeito. É um pacote completo e nós só precisamos saber como investir em colaboração nas escolas ao invés de competição, mas isto é estória para outro texto.

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